Você sabia que... fé e revolução andaram juntas no grupo Maji-majis, contra a dominação europeia na África?

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                     

  

18/02/2013

 

Você sabia que...

 

A religião foi responsável pela criação de um dos primeiros grupos revolucionários contra a dominação européia na África?

 

Prof. Carl Lima

 

 

 

 

Para compreendermos a dinâmica da gestação e eclosão desse movimento, ocorrido entre 1905 e 1907, na África Oriental Alemã, temos que nos ater a dois pontos centrais: 1º concepção contextualizada dos movimentos de Resistência em África, quando de sua partilha pelos europeus; a especificidade da região, tanto nos fatores que favoreceram a implantação do movimento - Maji-majis - quanto as consequências do mesmo no fomento do ideal de libertação em momentos posteriores.

 

Pensar os Movimentos de Resistência na África é pensar em territórios, onde o processo de dominação econômica se fez mais presente. Segundo Ki-Zerbo (1972), a dominação européia não foi efetiva em todos os espaços, ficando detidamente circunscrita aos centros e arredores dos territórios economicamente produtivos e ao longo dos caminhos e vias de escoamentos dessas riquezas. É justamente nesses lugares que apareceram os movimentos mais organizados de contestação à presença de estrangeiros que, a partir da Conferência de Berlim (1871), mantinham um projeto de colonialismo que era baseado na exploração total do continente e consequentemente dos indivíduos.

 

 

Assim, os Sudaneses (1900-1904); os Egípcios e sua revolução Urabista (1860-1882) e os Somalis (1884-1894) ante o Império Britânico; os Sonikes do Senegal (1898-1901) contra o domínio francês e os nossos Maji-Majis, rebeldes contrários aos alemães são grandes representantes da primeira “vaga” de contestação e libertação.

 

Mesmo localizados em lugares distintos do continente africano e estando integrados a um sistema colonial, que na maioria das vezes lançava mão de estratégias específicas para cada realidade, Hernandez (2005) reconhece alguns pontos que os unifica, principalmente, em se tratando dos fatores disseminadores dos movimentos organizativos prol libertação. De acordo a autora são eles: confisco de terras, forma compulsória de trabalho, cobrança abusiva de impostos e a violência em todas as esferas. Todos esses, foram comuns a experiência do colonialismo e unidos foram agregadores, uma espécie de fermento para a Revolução.

 

Somados aos pontos anteriores, alguns outros devem ser trazidos à tona e refletidos. Eles são ao mesmo tempo conseqüências dos primeiros e responsáveis pela maturidade dos movimentos. Dessa forma, temos: a perda de soberania dos territórios, quebra de legitimidade dos chefes locais, a repressão cultural e o desprezo das idéias religiosas tradicionais como motivadores das ideologias protonacionalistas e disseminadoras de um discurso capaz de cooptar e recrutar as populações autóctones para a luta.

 

Apenas nesse ínterim podemos compreender os Maji-majis, movimento que nasce em 1905, na então África Oriental Alemã, que mesmo reprimido em menos de dois anos, destacou-se pela sua organização e conteúdo ideológico, como também por suas estratégias de ação e guerrilha. O poder desse movimento pode ser notado na longa duração de seus ideais, que não ficaram resumidos apenas aos Maji-majis. Pelo contrário, serviram de farol para inúmeros outros movimentos, estando presentes de forma significativa na independência de fato da região, em 1956, e na unificação do território, defendida por Julius Nyrere - intelectual nacionalista que se transformou no primeiro presidente do país - propiciando a união à ilha de Zanzibar, formando a atual Tanzânia.

 

A principal característica dos Maji-Majis foi a demonstração do quanto as sociedades africanas e os seus poderes políticos estavam imbricados com a religiosidade local. No momento que a colonização se fez perturbadora, a religião foi responsável pela tomada de consciência, organizando os levantes e convertendo-se em instrumento de oposição. Para se ter uma idéia, Kinjikitile Ngwale – líder dos Maji-Majis – utilizou a religião e a magia como aglutinadores das inúmeras etnias que coexistiam na região – eram cerca de 20 grupos étnicos – contra os quase vinte anos de exploração e injustiças desenvolvidas pela dominação alemã.

 

Para promover a unidade entre as etnias, Kinjikitile – enforcado ainda em agosto de 1905 – lançou mão da construção de um templo, denominado “Casa de Deus”, que tinha o objetivo de promover a integração e congregação dos grupos, além de se tornar o espaço usado para preparar o Maji, água tida como medicinal e sagrada, com o poder de proteger todos os africanos que a bebessem, contra a artilharia branca.

 

Além de tudo aquilo que foi aqui relatado, não posso deixar de falar sobre o estopim para a organização dos Maji-majis. É consenso na historiografia que a introdução da cultura do algodão e sua política de escravização dos indivíduos, estabelecendo trabalho forçado em troca de um salário irrisório, contrapondo-se a uma economia tradicionalmente doméstica, serviram como principais motivadores para a formação do grupo. Os Maji-majis foram, sem dúvida alguma, até aquele período o movimento contestador mais organizado e centralizado, haja vista que conseguiu unir uma grande diversidade em torno de um processo de libertação. Além disso, seus ideais passaram a permear o imaginário de quaisquer organizações que tentassem promover um nacionalismo no continente africano.

 

 

(Texto do prof. Carl Lima, da redação d'O Historiante)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONFIRA TAMBÉM:

- HERNANDEZ, Leila. A África na sala de aula: visita à História Contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005.

 

- KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra, Vol. II. Paris: Biblioteca Universitária, 1972.

 

- KI-ZERBO, Joseph (ORG). História Geral da África, Vol. VIII. São Paulo: Ática, 1982.

 

- Vale a pena consultar a coleção da Unesco História Geral da África, que conta com renomados pesquisadores.

 

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